Semana passada fiz a conta de verdade com um franqueado que opera cinco lojas em condomínios de classe média em Curitiba. Ele olhou para a planilha e disse: "achei que era só R$ 2 mil de custo fixo, mas quando coloquei tudo junto deu R$ 8,5 mil por loja por mês". Não é suspeita. É realidade.
A maioria dos empreendedores que chegam com interesse em franquia pensa só em reabastecimento e aluguel. Isso deixa de fora metade do quebra-cabeça. Vou detalhar cada linha que importa.
Aluguel do ponto e divisão de espaço
Aqui começa o dano no caixa. Um minimercado autônomo não ocupa muito espaço: entre 4 e 8 metros quadrados. Mas o preço por metro varia brutalmente conforme o local.
Em condomínio residencial com ~150 unidades, o síndico costuma cobrar entre R$ 800 e R$ 1.500 por mês. Em prédio corporativo com escritórios de giro rápido, sobe para R$ 1.500 a R$ 2.500. Academia? Depende do tamanho, vai de R$ 600 a R$ 1.200.
Tem nuance. Alguns síndicos pedem percentual de faturamento em vez de taxa fixa. Outras locações incluem internet e energia na conta. Você precisa saber o que está pagar antes de assinar.
Energia elétrica e climatização
Geladeira 24 horas não é grátis. Uma unidade refrigerada comum consome entre 80 a 150 watts contínuos. Multiplica por 30 dias, 24 horas. Dá algo entre R$ 120 e R$ 300 por mês, dependendo da tarifa local e se o imóvel recarrega você ou já incluiu na conta geral.
Algumas lojas precisam de climatizador de ar para evitar condensação e manter temperatura da câmara. Aí sobe mais R$ 80 a R$ 150. Humidade alta quebra eletrônicos e estraga produto.
Não é número grande, mas é certo e recorrente. Pior quando você tem três ou quatro lojas espalhadas: aquilo some de forma cruel na margem bruta.
Internet, app e plataforma de pagamento
Sem conectividade a loja não funciona. WiFi do condomínio nem sempre dá conta. A maioria dos franqueados contrata 4G dedicado com plano movel entre R$ 150 e R$ 250 por ponto por mês.
Depois tem taxa de transação. Pix custa entre 0,5% e 1,5%, cartão débito entre 0,8% e 1,2%, cartão crédito entre 1,5% e 2,9%. Se o ticket médio é R$ 20 e você vende ~30 transações diárias, isso pode virar R$ 200 a R$ 400 de taxa pura.
O app da Be Honest e o painel HRM não têm custo por loja (está incluído na franquia), mas tem fornecedores que cobram assinatura de plataforma. Se for terceiro, já contabilize entre R$ 200 e R$ 500 mensais por ponto.
Manutenção de equipamentos e sensores
Geladeira quebra. Porta não fecha direito. Sensor de peso erra a leitura. Câmera com mofo na lente.
Você pode terceirizar manutenção preventiva com técnico que passa mensalmente. Custa entre R$ 200 e R$ 400 por loja. Ou tira do próprio bolso quando algo quebra e fica dias inoperável.
Nas lojas que operamos vimos isso: não investir em manutenção custa mais caro depois. Uma geladeira parada uma semana perde ~R$ 500 em venda. Paga a manutenção preventiva três vezes.
Depreciação de equipamento e reposição
Geladeira custa entre R$ 2.500 e R$ 4.500. Câmeras de vigilância, estante, carrinho, sensores: mais R$ 3 mil a R$ 5 mil de setup inicial. Ninguém quer falar disso, mas esses bens depreciam.
Se você divide por 60 meses (cinco anos de vida útil), dá R$ 100 a R$ 150 por mês só em depreciação. Se vai operando com múltiplas lojas e já precisa trocar uma geladeira por ano, tá bom considerar R$ 200 a R$ 300 de reposição mensal no orçamento.
Reabastecimento e logística
Aqui é o maior custo para a maioria dos operadores. Não é o produto em si (você compra caro do distribuidor e reaplica margem). É a rota, o tempo, o combustível.
Um franqueado com cinco lojas em bairros diferentes de Curitiba gasta entre R$ 1.500 e R$ 2.500 por mês em gasolina e desgaste de carro se reabastece 2 vezes por semana. Se faz todo dia, dobra.
Tem opção de pedir serviço de logística terceirizado. Fica entre R$ 600 e R$ 1.200 por ponto por mês. Mais caro, mas você ganha tempo e previsibilidade.
Seguro e documentação
Nem todo ponto exige, mas prédio corporativo e academia de verdade cobram seguro de responsabilidade civil. Entre R$ 150 e R$ 300 por loja por ano. Distribua em 12 meses, da R$ 12 a R$ 25 mensais.
Tem licença de funcionamento, alvará de funcionamento em alguns municípios, registro na vigilância sanitária se vender alimento. Não costuma ser caro, mas tem custo. Mais algo entre R$ 50 a R$ 150 por mês (amortizado anualmente).
Quando essa conta NÃO funciona
Se você pensa em abrir uma loja autônoma em ponto com menos de 60 unidades habitadas ou ocupadas, a conta fica ruim. Vendas vão ficar entre R$ 4 mil e R$ 6 mil por mês. Custo fixo já come R$ 6 mil a R$ 8 mil. Você perde.
Também não funciona em local onde você já tem concorrência forte (minimize de loja física, sorveteria, padaria). A sobreposição de público quebra ticket médio e frequência.
E não funciona se você não conseguir negociar o ponto por menos de 15% do faturamento projetado. Acima disso, a margem bruta de 35% a 40% não cobre o fixo.
O número total realista
Aluguel, R$ 1 mil a R$ 1.500. Energia e climatização, R$ 200 a R$ 400. Internet e pagamento, R$ 400 a R$ 600. Manutenção, R$ 200 a R$ 400. Depreciação, R$ 200 a R$ 300. Reabastecimento (próprio), R$ 1.500 a R$ 2.500. Seguro e documentação, R$ 100 a R$ 200.
Total: R$ 4 mil a R$ 6 mil por loja por mês em custo fixo + variável não alimentar. Se você vende R$ 10 mil por mês com margem bruta de 35%, sobra R$ 3.500. Menos R$ 5 mil de fixo? Fica negativo. Precisa de ticket médio mais alto ou maior volume.
A realidade dura é essa. Um minimercado autônomo em ponto bom com base sólida de consumidores consegue faturar entre R$ 12 mil e R$ 18 mil por mês. Com a conta certa de custo, paga a si mesmo entre 8 a 14 meses. Antes disso, é investimento puro.
Se está pensando em abrir sua primeira loja, peça para conversar com um franqueado que opera há mais de seis meses em ponto parecido com o seu. Simule a rota de reabastecimento, pergunte quanto gasta com energia, pergunte quanto tempo consome por semana. Os números de verdade vêm daí, não de uma planilha bonita.